sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Eu Chapeuzinho Vermelho

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Ele sorriu da minha falta de malicía, eu sorri da minha grande preguiça.

Domingo as sete da manhã, remelas nos olhos encarando os primeiros raios de sol. O que te coloca de pé a essa hora ao domingo? Eu levanto cedo assim aos domingos vez ou outra para correr, olha que coisa absurda, não? Mas quem corre entende a loucura.

Nesse sereno matinal de domingo você sai na rua esperando encontrar apenas um gato pulando telhados de volta pra casa, cachorros magros vagantes, e moças de maquiagem borrada voltando após a noitada de sábado.
Nada que se dirija a sua pessoa. E aí está o segredo da invisibilidade, porque de vez em quando ser invisível é tão bom.
Eu sempre gostei da Sheila da Caverna do Dragão com aquela capa de invisibilidade a mão, adoraria ter uma.
Pense que bela fuga que essa não seria? Poe a capa e se torna invisível para o que quizer, até pra você mesmo as vezes. Seria perfeito. Mas não daria pra se esconder de Deus.

Uma vez, sonhei que era a chapeuzinho vermelho, indo levar doces pro meu falecido avô. Eu tinha oito anos quanto tive o sonho. O caminho era divertido, e a casa do velinho era no céu. Já que fazia algum tempo que ele tinha pra lá ido. Bati na porta velha de madeira caindo aos pedaços, abriu-se sozinha.

Meu avô tinha uma cama gigante, aqui na terra ele era tão pequininho, devia ter comido fermento celestial, e a cesta de doces era tão pequenina, nunca o satisfaria. Mas era tudo que eu tinha. Me aproximando percebi meu avô tão estranho.
E disse:- Vô que pés grandes você tem. Que mãos grandes você tem. Que corpo grande também. Do alto da cama gigante, um ser com cara de anjo colocou a cabeça para fora, com um brilho no rosto que se encheu todo o lugar me fitou com tanta ternura.
De baixo pra cima falei sem pensar:
- Que olhos grandes você tem. Mas não você não é meu avô!
Ele respondeu com voz estrondosamente mansa:
-Não minha querida, não sou. Sou seu Pai.
Perguntei:
-Meu pai do céu?
Ele sorriu, tudo ficou tão claro que meus olhos não puderam se abrir e disse:
- Sim, seu Pai do céu. Não preciso dos doces, isso foi apenas um motivo pra trazer você pra mim.

Depois daquele dia, acordei falando que tinha conhecido Deus, e que Ele tinha falado comigo e gostava de mim, e eu não precisava ter nada em especial pra que ele gostasse, nem doces.
Minha mãe impressionada achava lindo, eu contava o sonho pra quem quizesse ouvir.
Isso tudo, porque me lembrei que posso ser invisível pra todos, mas não pra Ele.
Que olhos grandes Ele tem.

Pois bem, a rua era mais uma num domingo de manhã, eu saí para correr e ser enquanto corro invisivel pra mim, não me prendendo a nada, não esperando nada. Passos, vento, minha perseverança vencendo o cansaço e a dor, por esses minutos sou heroina de mim mesmo, a fortaleza de dentro vencendo as fraquezas de dentro e de fora, ultrapassando meus próprios limites, sendo forte.

Mas o desconhecido sorriu da minha inocência, que bailava no sonho de criança com o meu avô. Quando berrou do outro lado na outra rua:
- Corre no canto maluca! Senão te atropelam. Pensa que é invisivel?
Eu sorri da minha preguiça em perder tempo a replicar, que ele nem tinha visto a rua fechada por cones lá no início, reservada especialmente para meu sonho de invisível se realizar; eu me aquecia e a corrida logo iria começar.
Deixei pra lá, ele não tem olhos tão grandes quanto os de Deus.


Texto: Alias

Publicado no Recanto das Letras em 12/09/2008
Código do texto: T1173749

2 comentários:

Yára disse...

Etel... que lindo texto... neste fim de tarde.. de fim do mês de novembro é bom alguém me lembrar que Deus tem olhos grandes... e que me olha.
Beijo.

Etelvina de Oliveira disse...

Oi, Yára

Esse é o nosso consolo, amiga.

Os olhos de Deus estão como chamas de fogo sobre nós.

beijos